Mergulhadores da Marinha: o treinamento extremo que transforma militares em especialistas no combate ao tráfico internacional




    Por trás das grandes apreensões de drogas realizadas nos portos brasileiros existe uma tropa altamente especializada, treinada para atuar em ambientes hostis, sob pressão extrema e em operações que exigem precisão absoluta. São os Mergulhadores Escafandristas da Marinha do Brasil, considerados referência nacional em operações subaquáticas e peças fundamentais no combate ao tráfico internacional de drogas.

    Nos últimos anos, organizações criminosas passaram a utilizar uma técnica sofisticada para tentar driblar a fiscalização: esconder grandes carregamentos de cocaína em compartimentos localizados nos cascos de navios mercantes, conhecidos como sea chests ou "caixas de mar". Esses espaços ficam cerca de dez metros abaixo da linha d'água, tornando praticamente impossível a inspeção sem a atuação de mergulhadores especializados.

    Desde 2020, os militares da Marinha que atuam no Comando do Grupamento de Patrulha Naval do Sul-Sudeste, em Santos, já contribuíram para a apreensão de mais de quatro toneladas de drogas em aproximadamente 300 embarcações inspecionadas. Somente em maio de 2026, uma operação conjunta com a Polícia Federal e a Receita Federal resultou na localização de mais de 340 quilos de cocaína escondidos no casco de um navio cargueiro com destino ao exterior. 

    Uma formação que elimina metade dos candidatos


    O sucesso dessas operações começa muito antes das missões nos portos. A formação dos Mergulhadores Escafandristas é considerada uma das mais rigorosas da Marinha do Brasil.

    Segundo a instituição, aproximadamente metade dos candidatos não consegue concluir o curso ou atingir os padrões mínimos exigidos. Durante o treinamento, os alunos enfrentam situações de extrema pressão física e psicológica, realizando tarefas complexas debaixo d'água em tempo reduzido e, muitas vezes, sob privação temporária da respiração. O domínio emocional e a capacidade de manter a calma em situações críticas são considerados fatores decisivos para a aprovação. 

    Antes mesmo de ingressar no curso, os candidatos precisam superar uma seleção rigorosa que inclui exames médicos, avaliação psicotécnica e uma série de provas físicas realizadas no mesmo dia. Entre os testes estão corrida, natação de 800 metros, natação de velocidade, exercícios de apneia dinâmica e estática, além de provas de força e resistência muscular.

    Treinamento para qualquer cenário


    A formação especializada ocorre no Centro de Instrução e Adestramento Almirante Áttila Monteiro Aché (CIAMA), unidade responsável pela capacitação militar nas áreas de submarinos, mergulho e operações especiais. Durante o curso, os futuros escafandristas aprendem diversas modalidades de mergulho, técnicas de resgate, socorro, salvamento, corte e solda submarina, manutenção de embarcações e operações de busca subaquática.

    De acordo com a Marinha, são necessários cerca de doze meses para formar um profissional plenamente apto a atuar em missões submersas. O objetivo é preparar militares capazes de enfrentar condições adversas, muitas vezes com recursos limitados, mantendo elevados padrões de segurança e eficiência operacional.

    Missão além do combate ao crime


    Embora as recentes operações contra o narcotráfico tenham colocado os mergulhadores em evidência, suas atribuições vão muito além da repressão ao crime organizado.

    Após a formação, esses especialistas podem ser designados para unidades de socorro e salvamento submarino, navios especializados, grupamentos de mergulho espalhados pelos Distritos Navais e centros de instrução. Entre suas missões estão o resgate de vidas, recuperação de embarcações, manutenção de estruturas submersas e apoio a operações militares e civis em todo o território nacional. 

    Uma força silenciosa que protege o Brasil


    Enquanto grande parte da população acompanha apenas os resultados das apreensões divulgadas pela imprensa, poucos conhecem o nível de preparo exigido daqueles que atuam debaixo d'água para impedir que toneladas de drogas deixem os portos brasileiros rumo à Europa e à Ásia.

    Trabalhando em ambientes escuros, confinados e de difícil acesso, os Mergulhadores Escafandristas da Marinha representam uma das especializações mais exigentes das Forças Armadas brasileiras. Sua atuação demonstra que o combate ao crime organizado também acontece longe dos holofotes, nas profundezas dos portos e canais marítimos, onde técnica, coragem e disciplina fazem toda a diferença. 

Assista uma reportagem completa da Marinha do Brasil mostrando como é o treinamento





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